Corrida no Ar

Culpa dos ingleses? Por que a maratona tem exatamente 42.195 metros?

Sérgio Rocha

30/10/2017 04h00

Você já se perguntou por que a maratona tem a distância “quebrada” de 42.195 metros? Por que não um número mais redondo, tipo 42 km?

Eu fiz um vídeo sobre esse assunto no canal Corrida no Ar e você pode conferir aqui.

Antes de explicar o porquê dessa distância, é preciso aprender um pouco sobre história.

Em 1892, quando os Jogos Olímpicos Modernos estavam sendo desenhados, o francês Michel Breal, amigo do Barão de Coubertin (o cara que tirou os Jogos do papel) sugeriu que seria bacana homenagear a lenda de Filípedes, o tal sujeito que teria corrido de Maratona à Atenas para anunciar para a galera que eles tinham vencido o poderoso exército Persa. Ele teria corrido uma distância de aproximadamente 40 km, chegou lá e disse “Nenikékamen!” –que significa “vencemos”, em grego–, e então, morreu.

Essa história entrou no corações de todos na época por causa de um poema publicado pelo inglês Robert Browning, em 1879, que narrava esse momento dramático da história que teria acontecido nas Guerras Médicas, cerca de 490 a.C.
Se você manja de inglês, pode ler o poema, que é sensacional.

Mas o problema é que Filípedes talvez nunca tenha feito isso. Ele era um mensageiro, algo comum na época e eles percorriam distâncias muito longas. Longas mesmo. Os caras eram do tipo ultramatonistas, saca?

No livro “Histórias” de Heródoto, Filípedes teria sido o cara destacado pelo exército ateniense para pedir ajuda dos espartanos para a batalha contra os persas que já estavam na planície de Maratona.

Sabe qual é a distância entre Atenas e Esparta? 240 km! E Felípedes teria percorrido essa distância em apenas um dia.

Então é muito improvável que ele tenha morrido depois de ter feito uma distância tão curta para os seus padrões – os tais 40 km que separam Maratona de Atenas.

Até Heródoto dizia que o que escreveu eram registros de histórias contadas de pai para filho e que não há precisão científica, digamos assim, do que teria acontecido.

Quem mudou essa história foi o filósofo Plutarco, que nasceu em 45 d.C., mais de 400 anos depois de Heródoto. Foi ele quem teria falado da tal corridinha de Maratona à Atenas, parafraseando o trabalho perdido de outro filósofo, Heraclides Poticus, nascido 100 anos depois do Heródoto.

Plutarco teria dito que quem fez essa corrida para avisar da vitória sobre os Persas teria sido um tal de Eucles e isso ficou esquecido. Ninguém mais lembrou do suposto feito de Filípedes.

Na verdade, até a grafia do nome do “herói” muda de um autor para o outro. Tem Felipedes, Feidipedes e Filipedes. Vou seguir chamando ele de Filípedes, ok?

O fato é que o poema do Browning regatou a história de Filípedes e acabou tornando o mensageiro no mito do sujeito que teria corrido 40 km, disse “Nenikékamen” e morreu em seguida.

Ok, mas e os tais 42, 195 metros, que é o assunto desse post?

Bem, como a distância de Atenas à Maratona era de 40 km, a primeira maratona olímpica, a de Atenas, feita com aproximadamente 40 km. Nos Jogos seguintes, os de Paris 1900, fizeram com 40.26 km. Já em St. Louis (EUA) 1904, a maratona teve 40 km e daí, nos Jogos de Londres, 1908 mediram exatos 42.195 metros – Epa!

Por que de repente esses 2.195 metros a mais?

De acordo com a lenda que sempre escutamos, a família real inglesa teria exigido que a maratona passasse em frente ao jardim do Castelo Windsor para que eles pudessem assistir à prova.

Mas parece que não foi bem assim. O meu amigo Nelton Araújo fez uma pesquisa histórica para escrever uma matéria sobre essa prova de Londres para a revista Contra-Relógio. Aliás, o Nelton estudou muito o lance do Filípedes e a origem dos 42.195,  e ele foi o meu consultor oficial para o vídeo que fiz e também para esse post.

Voltando: o Comitê Olímpico informou aos ingleses que eles deveriam fazer uma prova que tivesse entre 24 e 26 milhas. No final, ficou estabelecido que a maratona teria 26 milhas (41.8 km), mas os ajustes no percurso fizeram com que ele tivesse que sair de dentro do Castelo de Windsor. De acordo com o que foi escrito à época, isso foi feito para que o público não atrapalhasse a largada da prova e não para que a família real assistir a largada, pois obviamente eles queriam estar na chegada da prova – o que realmente aconteceu.

Também consta no site da IAAF, a Federação Internacional de Atletismo, que um dos ajustes foi para que as crianças do Hospital Infantil de Windsor pudessem assistir à largada. No final das contas, a distância total da prova ficou em exatos 42.195 metros.

Nos jogos seguintes, a maratona teve 40.2 km (Escotomo 1912), depois com 42.750 m (Antuérpia 1920) até que ficou estabelecido nos Jogos de Paris 1924 que a distância oficial da maratona era a que tinha sido medida em Londres 1908.

Para terminar esse texto, uma curiosidade: nos anos 1990, o percurso dos Jogos Olímpicos de Londres 1908 foram aferidos com o procedimento usado atualmente para a medição de provas. Adivinha a distância que foi corrida na realidade? 42.036, ou seja, 159 metros a menos do que tinha sido medido originalmente.

Puxa vida, o pessoal de 1908 poderia ter arredondado a distância para 42 km e daí a gente não teria que correr os malditos 195 metros, que, sem dúvida, são a parte mais difícil de correr uma maratona.

Sobre o autor

Sérgio Rocha começou a correr para perder peso há 20 anos e nunca mais parou. Nesse caminho, já completou muitas maratonaS, meias-maratonas e incontáveis provas de 10 km. Como profissão, era diretor de arte, mas sempre escrevia um texto aqui e outro ali nas revistas em que trabalhou. Em 2013, criou o canal no YouTube “Corrida no Ar”, que é hoje um dos maiores do segmento. Sérgio também apresenta o programa “Corre 89”, na Rádio Rock de São Paulo, junto do radialista PH Dragani. O programa vai ao ar todos os domingos, às 20h.

Sobre o blog

Este é um espaço para falar sobre o esporte de forma geral, dando dicas, cobrindo provas, escrevendo análises de produtos do mundo esportivo e, por vezes, também fazendo questionamentos que vão ajudá-los a olhar a corrida sob uma nova perspectiva.

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